Menores extravagantes

O menor deve ser educado e protegido pelos adultos, mas isso não permite que os responsáveis exijam tudo o que bem entendem da criança e do adolescente. É preciso equilibrar as medidas educativas com o direito à liberdade do menor, para que ele possa expressar sua identidade, seus valores, suas ideias, sempre livre de discriminação.

Texto originalmente publicado no blog “Moleque Esperto – Direito para menores e seus responsáveis”.

  • O menor deve ser educado e protegido pelos adultos, mas isso não permite que os responsáveis exijam tudo o que bem entendem da criança e do adolescente. É preciso equilibrar as medidas educativas com o direito à liberdade do menor, para que ele possa expressar sua identidade, seus valores, suas ideias, sempre livre de discriminação.


Quando consegui meu primeiro emprego, em um hotel de luxo no Rio de Janeiro, eu tinha um cabelo comprido, bem comprido. Os primeiros dias de trabalho se passavam com muitos elogios aos longos fios de cabelo castanho que, em horário de trabalho, eu deixava presos sobre a nuca. Certo dia, um dos diretores do hotel, reparando a minha cabeleira, fez uma pergunta, sorrindo: “Bernardo, você já reparou que ninguém no hotel Bambambam tem um cabelo como o seu?” Eu pensei “nossa, como as pessoas gostam do meu cabelo…” Mas antes que eu pudesse agradecer, ele continuou “Bernardo, se você quiser manter o seu emprego, trate de cortar esse cabelo o quanto antes, igual a todos os seus colegas”. Na época eu não respondi, apenas cortei o cabelo, sem traumas, sem sofrimento… acho que já estava um pouco cansado daquele penteado mesmo.

Pra quem leu a fábula da raposa e as uvas, de Esopo ou La Fontaine, vai entender que… sim, ainda acho que “as uvas estavam verdes”. Mas hoje, se me perguntassem se eu prefiro longo ou curto, poderia responder, como aprendi com Daniel Craig em James Bond, com voz baixa, firme e um leve olhar de desprezo: “Do I look like I care?” Em português: “vê se eu tenho cara de quem está ligando” ;o)

Bom, nem todo mundo é frio, duro e tem nervos de aço como James Bond. Algumas pessoas, sobretudo alguns adolescentes, dão grande importância ao corte de cabelo e ao penteado. É uma forma de expressar uma identidade, uma individualidade. Adolescentes precisam se afirmar socialmente. Alguns fazem tatuagens e piercings… outros fazem um penteado extravagante… Muitos seguem modas criadas por seus ídolos da música, do futebol, do cinema. Adolescentes gostam de experimentar coisas novas, faz parte do processo de desenvolvimento psíquico da infância para a idade adulta. Nessa fase, eles precisam e têm direito a alguma liberdade. Liberdade supervisionada, mas, sim, liberdade!

Para dar um exemplo, vou contar uma estória real de adolescente, alterando alguns nomes e detalhes para não comprometer alguém.

Um aluno de uma escola bilíngue, teuto-brasileira, em bairro nobre da cidade de Mexericas, raspou o cabelo da testa à nuca, deixando um tufo de cabelo em volta de cada orelha, inspirado em alguma espécie de mico-leão.

O corte mico-leão fazia sucesso na escola. Mas um dia o diretor se aproximou do aluno, quando o menino comia na cantina, e lhe disse que esse cabelo era inaceitável, que precisava de um corte normal. “Pode até ser igual ao antigo penteado do Justin Bieber”, disse o diretor, “com aquela franja que faz uma curva cuidadosamente calculada sobre a testa. Com essa todo mundo já se acostumou. Mas mico-leão… será que você não percebeu que é o único da escola com esse corte?” Enquanto o diretor falava, o menino dizia para si mesmo, em silêncio: “Justin Bieber, nem pensar! Argh!”

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Não, esse não é o corte mico-leão… mas eu gostei e incluí a foto 😉

Será que o menino cortará o cabelo? Não sei. Talvez perceba que não precisava daquele cabelo e aprenda que na vida existem pessoas que reprimem e outras que são reprimidas. Não deixa de ser uma forma de aprender alguma coisa. :-/

Mas será que devemos educar os menores para a vida negando-lhes direitos que achamos que a vida poderá negar-lhes mais tarde? Seria uma forma de preparar os adolescentes para as frustrações da vida e a intolerância da sociedade com relação às extravagâncias?

A escola deve se ocupar da definição do corte de cabelo das pessoas? Não estaria prejudicando o direito ao respeito e à liberdade dos menores? Será que há uma regra no estatuto da escola que impeça o corte de cabelo mico-leão? Se existe a regra, o diretor talvez tenha razão em aplicá-la, desde que a regra não viole normas de ordem pública, como as normas do Código de Defesa do Consumidor e o Estatuto da Criança e do Adolescente, por exemplo.

Sabemos que o direito ao respeito e à liberdade, consagrados na Constituição e no Estatuto da Criança e do Adolescente, funcionam como princípios e não como regras, devendo ser ponderados e não aplicados na base do tudo ou nada. Quero dizer que tais princípios devem ser aplicados de forma equilibrada, deixando que outros princípios e direitos produzam efeitos que competem com o respeito e a liberdade. Para sabermos se o diretor tem razão, é necessário avaliar quais são e que peso têm os princípios que a escola estaria defendendo em detrimento dos direitos à liberdade e ao respeito do menor.

Será que o diretor está defendendo o Princípio do Melhor Interesse da Criança? É verdade que a criança nem sempre sabe qual é o seu melhor interesse, e às vezes precisa da intervenção de um adulto…

Será que o diretor está tentando proteger o menor da discriminação que ele sofreria na sociedade com aquele cabelo? Pode ser… Jogadores de futebol com cortes do tipo moicano podem ser muito populares, mas a popularidade de alguns deve-se à enorme habilidade que eles desenvolvem no esporte, ao custo de muito, mas muito treino e disciplina. Ninguém se torna muito popular só por causa de um corte de cabelo. Por outro lado… certas extravagâncias podem dificultar a vida de muita gente.

Bom, os leitores esperam uma conclusão e eu não pretendo frustrá-los. Não sei responder com precisão às perguntas que eu mesmo formulei, mas acredito que se as crianças e adolescentes têm direto à liberdade e ao respeito com absoluta prioridade, a dúvida deve beneficiar os menores, e não os adultos. Se um menino quer ir para a escola com um corte original, talvez deva ter o direito de fazê-lo, desde que isso não perturbe o andamento das aulas. E se houver perturbação, por que não aproveitar para educar os alunos para a tolerância em relação às diferenças inofensivas? Por que não educar para desenvolver nas pessoas a consciência de que existe gente ao nosso redor, com anseios, sonhos, ideias, valores, e identidades que precisam ser preservados?

Disciplina é muito importante, sobretudo na escola. Mas as extravagâncias de alguns, se inofensivas, devem ser aproveitadas por aqueles que lutam por uma educação para a democracia. A democracia não deve ser uma ditadura da maioria, mas deve valorizar e proteger também as minorias. Assim é o espírito da Constituição de nosso país e assim deveria ser em nossas escolas.

Normas do ECA:

Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

Art. 17. O direito ao respeito consiste na inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral da criança e do adolescente, abrangendo a preservação da imagem, da identidade, da autonomia, dos valores, idéias e crenças, dos espaços e objetos pessoais.

Constituição da República:

Art. 227. É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão.

Referências:

AMIN, Andrea Rodrigues. Dos Direitos Fundamentais. In Curso de Direito da Criança e do Adolescente: aspectos teóricos e práticos / Kátia Maciel coord. 5ª edição. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011

ÁVILA, Humberto. Teoria dos Princípios. São Paulo, Malheiros, 5ª edição, 2006.

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Os pais têm o poder familiar. Mas que poderes têm os filhos menores?

O menor tem o poder e o direito de lutar pelos seus direitos e interesses com a ajuda da família, da sociedade e do Estado. Se a família falhar em sua missão, o menor terá a sociedade ao seu lado. Se isso não for suficiente, o menor terá acesso ao Poder Judiciário, onde ele será ouvido.
A lei prevê expressamente que o menor seja ouvido, de acordo com o seu grau de desenvolvimento e compreensão, e que seus direitos fundamentais sejam respeitados com absoluta prioridade, de acordo com o seu melhor interesse.

Texto originalmente publicado no blog “Moleque Esperto – Direito para menores e seus responsáveis”.

  • O menor tem o poder e o direito de lutar pelos seus direitos e interesses com a ajuda da família, da sociedade e do Estado. Se a família falhar em sua missão, o menor terá a sociedade ao seu lado. Se isso não for suficiente, o menor terá acesso ao Poder Judiciário, onde ele será ouvido.
  • A lei prevê expressamente que o menor seja ouvido, de acordo com o seu grau de desenvolvimento e compreensão, e que seus direitos fundamentais sejam respeitados com absoluta prioridade, de acordo com o seu melhor interesse.

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O Código Civil, em seu artigo 1.634, acerca do exercício do poder familiar, diz que compete aos pais obrigações tais como: dirigir a criação e educação dos filhos menores; tê-los em sua companhia e guarda; conceder-lhes ou negar-lhes consentimento para casarem; representá-los ou assisti-los consentindo em nome dos menores; exigir que lhes prestem obediência, respeito e os serviços próprios de sua idade e condição.

Enquanto os filhos não atingem a maioridade, os pais têm poder familiar não para dominá-los, mas para educá-los com carinho e diálogo, aplicando medidas disciplinares moderadas. Há quem defenda e quem abomine as palmadas e castigos físicos, mas eles não são expressamente proibidos pelo Direito. A famosa lei anti-palmada, que ainda não é lei, mas apenas projeto de lei, ainda precisa ser aprovada pelo congresso. Já a lesão corporal e os maus-tratos são crimes, sendo ainda mais graves quando cometidos contra menores.

A lei não diz que os pais têm o dever de aplicar castigos físicos nos filhos e, por outro lado, diz que os responsáveis não podem causar lesões corporais, danos à saúde, danos psicológicos ou morais. O menor tem o direito ao respeito, previsto no artigo 227 da Constituição e nos artigos 15 e 17 do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei 8.069 de 1990).

O moleque esperto já entendeu que o poder familiar dos pais é sobretudo um dever. Os pais não podem abandonar os filhos. Eles são responsáveis pelo atendimento às necessidades materiais e afetivas dos menores. Não podem renunciar a participar ativamente da formação, orientação e proteção dos filhos.

Os pais têm o poder familiar ao qual correspondem vários deveres. Será que os deveres e direitos do menor correspondem a poderes? Que poderes tem o menor?

O menor tem o poder e o direito de lutar pelos seus direitos e interesses com a ajuda da família, da sociedade e do Estado. Se a família falhar em sua missão, o menor terá a sociedade ao seu lado. Se isso não for suficiente, o menor terá acesso ao Poder Judiciário, onde ele será ouvido.

O menor tem poder de influenciar as decisões dos adultos e o poder de buscar proteção na sociedade e no Estado quando a vontade dos pais revela abuso do poder familiar. “A vontade dos absolutamente incapazes (…)”, menores de 16 anos, “é juridicamente relevante na concretização de situações existenciais a ele concernentes, desde que demonstrem discernimento bastante para tanto”, diz o enunciado 138 da Primeira Jornada de Direito Civil promovida pelo Conselho da Justiça Federal, de setembro de 2002, em que diversos juristas brasileiros reuniram-se para propor e votar as melhores interpretações para determinados artigos do então recém aprovado Código Civil. Ora, se a vontade do menor de 16 anos é relevante, com maior razão ainda a vontade do menor de 18 anos será relevante.

Apesar de impossibilitado de praticar diretamente os atos da vida civil, o menor tem direitos com absoluta prioridade e tem a seu favor a doutrina da proteção integral e o princípio do melhor interesse da criança (ver, ao final da página, lista de posts relacionados para explorar esses temas). Se o menor tem direitos, prioridade absoluta e as decisões que afetam sua vida devem atender ao seu melhor interesse, nada mais natural que ele seja ouvido por seus responsáveis. Se isso não acontecer, o menor poderá recorrer ao Conselho Tutelar mais próximo ou ao Poder Judiciário para que um juiz ouça sua vontade.

A lei prevê expressamente que a criança seja ouvida, de acordo com o seu grau de desenvolvimento e compreensão, nos casos, por exemplo, em que o menor deva ser adotado ou deva escolher em que lar ou com que família deverá morar (artigos 28 § 1º e 45 § 2º do ECA).

Não podemos esquecer que o artigo 1.513 do Código Civil proíbe a qualquer pessoa interferir na vida de qualquer família, em suas relações internas. Mas como os interesses dos menores estão acima dos interesses dos seus pais, a sociedade e o Estado podem e devem intervir quando os pais desrespeitam os direitos dos filhos menores.

Heloisa Helena Barboza nos relata um exemplo real de como a sociedade pode agir no interesse do menor, contra o poder familiar dos pais:

‘Um menino de um ano e dois meses chegou aos médicos apresentando infecções de repetição, sendo constatado em alguns meses que o mesmo sofria de doença congênita que evolui com infecções de repetição até a morte. Não havia tratamento à época, mas as infecções poderiam ser atenuadas com medicação apropriada. Houve seguidos períodos de internação, e por longo período a criança ficou com cateter semi-implantado para alimentação parenteral domiciliar e sonda nasogástrica, que ficava permanentemente em seu nariz. “Nunca aceitou gastrostomia e o respeitamos”. Os médicos assistentes evitavam também fazer procedimentos ou interná-lo “quando o time do seu coração jogava”. Repentinamente a criança desapareceu, os pais não mantinham mais contato. Os pais estavam desesperançados, cansados e haviam entregue o filho “nas mãos de Deus”, nada mais fazendo. Os médicos, “após várias tentativas e com muito constrangimento” ameaçaram com denúncia ao Conselho Tutelar por maus-tratos, caso não procurassem ajuda para seu filho. A criança retornou pior, desnutrida e com severa infecção, que resultou na amputação de um pé. Mesmo assim, não houve melhora. Após cinco anos o menor faleceu.’

Não há dúvida de que os médicos agiram em prol dos interesses do menor, contra a vontade dos pais, respeitando com razoabilidade as vontades manifestadas pelo próprio menor.

Por mais que a lei diga que o menor é civilmente incapaz, o Direito admite que crianças são inteligentes e, quando bem educadas, atingem um bom grau de compreensão de questões que podem ser difíceis para muitos adultos. Se não reconhecermos aos menores algum poder de influenciar decisões dos adultos, os direitos fundamentais dos menores previstos na Constituição e no ECA perdem a razão de ser. Não há liberdade nem dignidade sem um mínimo de poder.

A incapacidade civil das crianças e adolescentes deve-se ao menor grau de discernimento e maturidade das pessoas em desenvolvimento, mas os limites de idade da incapacidade impostos pela lei não levam em consideração os diferentes graus de desenvolvimento de cada indivíduo. A família, a sociedade e o Estado (especialmente o Poder Judiciário) devem ter sensibilidade para identificar e respeitar o grau de desenvolvimento de cada criança, e de acordo com esses parâmetros avaliar suas opiniões e vontades, para somente depois decidir em prol do seu melhor interesse.

A incapacidade civil dos menores não foi criada para que eles sejam calados e dominados pelos adultos. Muito pelo contrário, a incapacidade civil serve para proteger os menores. Em um próximo post trataremos de como o menor é protegido pela incapacidade civil e pelas normas dela decorrentes. Até breve.

Posts relacionados:

Referências:

BARBOZA, Heloisa Helena. Poder familiar em face das práticas médicas. In Revista do Advogado. São Paulo, Associação dos Advogados de São Paulo, ano XXIV, jun. 2004, nº 76, pp. 40-46.

CARBONERA, Silvana Maria. O papel jurídico do afeto nas relações de família. Revista Jurídica das Faculdades Unificadas de Foz do Iguaçu 1/9-23. Foz do Iguaçu, ano I, 1999. Apud COMEL, Denise Damo. Do Poder Familiar. São Paulo, Revista dos Tribunais: 2003. Pág. 90.

COMEL, Denise Damo. Do Poder Familiar. São Paulo, Revista dos Tribunais: 2003.

DINIZ. Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro: 5. Direito de Família. – São Paulo:Saraiva, 2007. Página 519.

MACIEL, Kátia Regina Ferreira Lobo Andrade. Poder Familiar. In Curso de Direito da Criança e do Adolescente: aspectos teóricos e práticos / Kátia Maciel coord. 5ª edição. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011

RODRIGUES, Silvio. Direito Civil: Direito de Família. São Paulo: Saraiva, 1980 página 358 apud DINIZ. Maria Helena. Curso de Direito Civil Brasileiro: 5. Direito de Família. Página 515.

Quem tem mais direitos? O adulto ou a criança?

Quem tem mais direitos é a criança! E também o adolescente! As crianças e os adolescentes têm a proteção integral dedicada aos adultos, mais a proteção especial dedicada aos menores. Mas nem sempre foi assim. No passado não muito distante, a lei só tratava do menor quando ele se tornava um problema social, quer dizer, só remediava, sem prevenir danos aos pequenos, sem reconhecer nem garantir direitos.

Texto originalmente publicado no blog “Moleque Esperto – Direito para menores e seus responsáveis”.

  • Quem tem mais direitos é a criança! E também o adolescente! As crianças e os adolescentes têm a proteção integral dedicada aos adultos, mais a proteção especial dedicada aos menores. Mas nem sempre foi assim. No passado não muito distante, a lei só tratava do menor quando ele se tornava um problema social, quer dizer, só remediava, sem prevenir danos aos pequenos, sem reconhecer nem garantir direitos.

A idéia de proporcionar à criança uma proteção especial surgiu na Declaração dos Direitos da Criança, de Genebra, no ano de 1924. Naquela época, no Brasil, ainda se adotava a Teoria do Direito Penal do Menor, segundo a qual as crianças e adolescentes eram tratados apenas quando associados à delinquência. Trata-se da teoria que levou às legislações do século XIX e do início do século XX. Foi de grande influência sobre o Código Criminal do Império de 1890 e o primeiro Código de Menores de 1927. Ao longo do século XX, o mundo evoluiu na forma de proteção do menor. A declaração Universal dos Direitos Humanos da ONU em 1948 reclamava o direito a cuidados e assistências especiais aos menores. Já a Convenção Americana sobre os Direitos Humanos de 1969 (Pacto de São José da Costa Rica) dispõe que toda criança tem direito às medidas de proteção que sua condição de menor requer por parte da família, da sociedade e do Estado. A raiz mais próxima da Doutrina de Proteção Integral é a Convenção sobre o Direito da Criança aprovada pela Assembléia Geral da ONU em 1989. Tal Convenção foi admitida como direito interno brasileiro através do Decreto Legislativo 28 de 1990, promulgado pelo Presidente da República na forma do Decreto 99.710 de 1990. A Constituição de 1988 foi pioneira no Direito brasileiro em adotar a prioridade absoluta da criança e do adolescente e sua proteção como dever da família, da sociedade e do Estado. O Código de Menores de 1979, por adotar a Doutrina da Situação Irregular, incompatível com a Proteção Integral, já não podia ser aplicado com a vigência da Constituição de 1988. A Doutrina da Situação Irregular buscava prevenir e erradicar situações que fugiam ao padrão normal da sociedade, como menores abandonados, vítimas de maus-tratos, miseráveis, além dos infratores. Era um avanço em relação à Doutrina do Direito Penal do Menor, mas não acompanhava os avanços no Direito da Criança e do Adolescente que vinham acontecendo no mundo.

Percebeu-se a necessidade de criação de uma lei que concretizasse as conquistas obtidas e sedimentadas na nova Constituição. Esta lei foi o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA – Lei 8.069 de 1990).

A doutrina da Proteção Integral é expressamente adotada pelo ECA em seu primeiro artigo:

Art. 1º Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente.

Podemos destacar dois pontos principais defendidos por essa nova doutrina: as pessoas com menos de 18 anos de idade possuem direitos iguais aos dos adultos, além de direitos que lhes são peculiares, considerando sua especial condição de pessoas em desenvolvimento ou em formação; e a família, a sociedade e o Estado são solidariamente responsáveis pela garantia de tais direitos.

O menor portanto tem no ECA a expressa garantia da defesa dos direitos sem nenhuma restrição em relação aos adultos. O ECA, assim como a Constituição, garante absoluta prioridade à criança e ao adolescente quanto aos direitos da personalidade, sendo responsáveis por essa garantia a família, a sociedade e o Estado. Mas o moleque esperto já sabe: ter direitos é bom, claro, mas traz uma série de deveres, como diz o Ziraldo.

Referências:

ZIRALDO e ANADEP. Crianças e Adolescentes Primeiro! Cartilha disponível em http://portal.mj.gov.br/sedh/spdca/Cartilha%20Defensor%20Publico4.pdf Publicado em 2011. Acesso em 10/02/2012

AMIN, Andrea Rodrigues. Doutrina da Proteção Integral. In Curso de Direito da Criança e do adolescente : aspectos teóricos e práticos / Kátia Maciel coord. 5ª edição. Rio de Janeiro: Lumen Juris, 2011