Nós e eles, em lento processo de unificação

  • Somos animais gregários e tendentes à cooperação. Porém, forças desagregadoras atuam em nossas relações, pela nossa natureza humana. Fazer prevalecerem as forças agregadoras é um desafio que vem sendo superado ao longo de milênios da nossa história, o que nos leva a entender que uma cultura de relações de confiança é fundamental para o desenvolvimento econômico de uma nação.

Yuval Noah Harari, em seu livro entitulado “Sapiens”, apresenta brilhantemente uma história da humanidade, da aparição da nossa espécie até os dias de hoje, e questiona: a nossa história tem uma direção? E sem rodeios ele responde: sim. Parece muito claro para o historiador Y. N. Harari que, por milênios, culturas pequenas e simples gradualmente crescem e tornam-se civilizações mais complexas, incorporando outras civilizações menores, unificando impérios cada vez maiores. O autor chega a dizer que estamos vivendo já uma realidade que se aproxima muito de um grande império globalizado, e relativamente pacífico quando comparado aos séculos e milênios passados.

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Entenda que o caminho da história em direção às unificações, apontada por Harari, é uma generalização, verdadeira apenas em uma macroanálise. A direção da história é uma resultante, a longo prazo, de muitas reviravoltas e relações extremamente complexas, desenvolvidas por caminhos tortuosos. Os retrocessos podem durar longos períodos. Para se chegar a uma definição da direção da história, não basta observar décadas ou séculos de humanidade “em voo de pássaro”, é preciso tomar um afastamento de um satélite em órbita, como observar a Terra da Lua, e analisar milênios da nossa evolução.

Os grandes grupos humanos sustentam  e mantêm sua organização viva com base em ficções como o dinheiro e a pessoa jurídica (Estados, cidades, sociedades empresárias, etc.). É impressionante como essas ficções, assim como a religião, são capazes de unir grandes grupos de pessoas que passam a se reconhecer como um povo, com uma identidade comum. As pessoas assim identificadas como pertencentes ao mesmo grupo tendem a se proteger mutuamente.

Em todas as espécies animais existem dois grupos rivais: nós e eles. Quem não é identificado como membro do nosso grupo geralmente é olhado com desconfiança. É a lógica dos grupos de chimpanzés, cada um com no máximo algumas dezenas de indivíduos, ou das torcidas de futebol, eternamente movidas por furiosas paixões, ou ainda a disputa entre cariocas e paulistas.

A cooperação costuma ser mais fácil e espontânea entre pessoas que se identificam como membros do mesmo grupo. Alunos de um determinado colégio ficam felizes em saber que têm resultados melhores do que os de outro colégio nos concursos de admissão nas universidades. Moradores de uma cidade ficam orgulhosos quando realizam melhorias em suas ruas e praças, mesmo que cidades vizinhas sofram com falta de recursos. Países vítimas de ataques terroristas bombardeiam as bases dos grupos extremistas em outros países e são acusados por estes de serem os verdadeiros terroristas.

Se os terroristas estão em outro país, têm outra religião, outra cultura e exploram recursos naturais valiosos em seu território, muitos acham justificável a guerra e os bombardeios cujos efeitos envolvem a morte de milhares de civis inocentes. Se os terroristas estão em nosso próprio país, temos mais cuidado ao perseguí-los, pois não aceitamos bombardear nosso próprio território.

Se convivemos com um animal de estimação, a ponto de lhe darmos um nome, a proximidade com o bichinho nos faz levá-lo ao veterinário, dar comida a ele, fazemos até enterro quando ele morre, como se fosse parente ou amigo. Por outro lado, se o animal faz parte de uma população criada para o abate, somos capazes de manter o bicho em confinamento, sem poder se mexer, sem carinho, sem nenhuma liberdade, apenas para comermos sua carne após a engorda.

Voltando ao que diz Harari no livro Sapiens, se um dia aceitarmos ao menos 10% dos que as associações protetoras dos animais defendem, teremos que reconhecer que a criação de animais em confinamento para o abate tem se perpetuado como o maior crime da humanidade.

No passado não muito distante, e ainda encontramos resquícios dessas práticas no presente, escravizávamos indivíduos da nossa espécie, sem remorso e sem piedade, pois não considerávamos os escravos seres dignos de liberdade, pois simplesmente não eram pessoas, portanto não faziam parte do “nosso grupo”.

Alguns grupos tendem a ser mais inclusivos. Os cristãos pregam que todas as pessoas são irmãos, filhos de Deus. Os Budistas entendem que cada um está em todos os outros e em todas as coisas do universo, e que tudo está interligado, portanto não haveria um grupo que inclui e outro que exclui um indivíduo. Ainda para os budistas, os animais sencientes merecem a nossa proteção e não devem ser mortos nem mesmo para a alimentação.

Apesar da persistência de atitudes orientadas para a segregação e pelo preconceito, ainda assim a história parece nos levar para o caminho da união, inclusão e cooperação. Como dizem, somos animais gregários, mesmo que a componente desagregadora do preconceito tenha sempre alguma força. Aliás, quanto a isso, o universo parece ser coerente em muitos níveis, com uma força desagregadora, chamada força fraca, e uma força agregadora, chamada força forte, ambas atuando na estabilidade das partículas integrantes dos núcleos dos átomos. Físicos e sociólogos podem se divertir discutindo se essas simetrias em diferentes escalas têm algum significado ou razão de ser.

De fato, em qualquer sociedade, temos pessoas que atuam de forma desagregadora, não cooperativa, e outras que atuam de forma agregadora, cooperando para o bem comum. Essas relações complexas são objeto da chamada Teoria dos Jogos, desenvolvida ao longo do século XX, tendo como um de seus expoentes mais populares o matemático John Nash, agraciado com o prêmio Nobel.

A atitude altruísta, de cooperação, costuma estar ligada a relações de confiança. Isto se explica pelo fato de ser desvantajoso manter uma conduta de cooperar quando a outra parte não coopera. Nesse caso, forma-se uma relação parasitária, em que um trabalha para alimentar a si e aos outros que não querem trabalhar.

Em sociedades com altos níveis de corrupção, não há confiança nem cooperação, e a sociedade empobrece enquanto poucos parasitas enriquecem. Já em uma sociedade onde prevalece a cultura da confiança, a sociedade enriquece junta. Essa é a conclusão que Alain Peyrefitte antecipa logo no início do livro “La Societé de Confiance”.

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O que causa a riqueza ou a pobreza das nações? Alain Peyrefitte aponta vários possíveis causas, mas identifica as relações de confiança como o fator principal do desenvolvimento econômico.

Mas como sair da sociedade de desafio, onde um ganha quando o outro perde, e chegar na sociedade da confiança, onde todos ganham juntos? Esse é justamente o desafio da “Teoria dos Jogos”, desenvolvida pelos matemáticos. Se os políticos e o povo têm dificuldade para resolver o problema da sociedade corrupta, talvez possam buscar soluções entre os matemáticos.

De fato, alguns chegaram ao desenvolvimento, enquanto outros continuam sendo promessas. A análise histórica de Peyrefitte é de grande importância para o entendimento dessa dinâmica. Ela será abordada em mais detalhes em um artigo futuro.

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