Teoria dos Jogos Políticos

  • O que a Teoria dos Jogos pode nos ensinar sobre soluções para a política brasileira?

A política é a ciência suprema e arquitetônica por excelência, segundo o filósofo Aristóteles em seus escritos sobre ética para Nicômaco. A política pode ser entendida como arquitetônica pois trata da disposição dos elementos do espaço e dos bens, da disposição dos direitos, da organização e distribuição das outras ciências pela população, indicando como, onde e quando as pessoas são educadas, medicadas, transportadas, onde e como elas podem construir suas casas, usar parques e praças.

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As decisões políticas em uma república democrática são, em geral, decisões tomadas por mais de uma pessoa, envolvendo representantes eleitos pelo povo. Esses representantes, sejam eles legisladores ou executores, obrigam-se a interagir uns com os outros com vista a servir à coisa pública, ao interesse comum, e não apenas aos interesses de cada representante.

Todos sabem que, se cada um colaborar para o bem comum, resultando na colaboração de todos, o esforço de cada um poderá ser menor e o resultado alcançado por todos será máximo. Todos nós sabemos disso. E os políticos, nossos representantes, são os que melhor conhecem essa lógica.

Os políticos conhecem tão bem essa lógica que sabem que se eles convencerem os outros a trabalhar e a colaborar para uma determinada finalidade, mas eles próprios não colaborarem, e apenas fingirem que colaboram (enquanto não são descobertos em sua falsidade), eles serão extremamente beneficiados, pois terão todos os bônus e nenhum ônus.

Dessa maneira é fácil entender ao menos uma das razões pelas quais os políticos prometem e não cumprem. O político, não o ideal, mas aquele com uma inteligência meramente instrumental, que eu classifico como uma inteligência porca (sem ofensa aos animais), faz de tudo para engajar todos os outros no que ele acha importante e vantajoso para o povo, sabendo que se ele e somente ele não colaborar, desviando um pouco de dinheiro por exemplo, o povo terá o que é bom, pois o seu crime terá sido pequeno comparado a toda a riqueza do Estado, e ele será extremamente favorecido por sua conduta. Mesmo que essa conduta seja reprovável, pensa ele, é desprezível, e não será por isso que o povo irá sofrer. 98% das pessoas fazem isso em algum grau.

Dan Ariely, em seu genial e divertidíssimo livro sobre desonestidade, cuja tradução chama-se “A Mais Pura Verdade Sobre Desonestidade” (The Honest Truth About Dishonesty, no original), diz que 98% das pessoas (em diversos países do mundo) acham justificável cometer pequenas infrações; 1% acham aceitável cometer graves infrações e provocar grandes prejuízos aos outros, se isso se converter em vantagem pessoal; e 1% acham injustificável cometer qualquer infração. E o que resulta das experiências relatadas no livro é o entendimento de que as pequenas infrações de 98% da população são mais danosas à economia como um todo do que as grandes infrações de 1%. Somos uma população onde 98% das pessoas têm uma “inteligência porca”.

Mas como chegamos a uma situação em que os políticos, ao invés de serem nobres e sábios, operadores idôneos da “ciência suprema”, parecem compor aquele 1% de infratores, pervertidos, inescrupulosos e psicopatas perigosos?

Acredito que a “Teoria dos Jogos” seja uma boa maneira de entender e pensar em soluções para a política brasileira e seus políticos. Quando uma pessoa acha melhor fazer com que os outros pensem que ela irá colaborar, para que os outros colaborem, enquanto essa pessoa apenas colhe os frutos, isso é apenas um jogo. Durante boa parte de minha vida eu ouvi que não devemos jogar os jogos que nos prejudicam, “não devemos entrar no jogo maldoso dos outros”, ou seja, não devemos reagir, apenas procurar afastamento. Isso pode funcionar em algumas situações, mas há jogos que somos obrigados a jogar, não temos a opção de sair.

Outro dia li uma frase interessante sobre sustentabilidade ambiental que ilustra bem esse problema: “Pense bem antes de jogar alguma coisa fora, pois não existe fora”. Mesmo quem decidir sair do país e deixar para trás todo o lixo e a lama que tanto incomoda, mesmo essas pessoas continuarão a ser afetas pela situação do Brasil, do México, da Síria e de tantos outros lugares.

O que a Teoria dos Jogos pode nos ensinar sobre soluções para a nossa política? A Teoria dos Jogos é assunto acadêmico, desenvolvido por matemáticos, com aplicações na política, teoria da evolução, economia, filosofia, ciência da computação e inteligência artificial. Ela se tornou popular com filmes como “Jogos de Guerra” (War Games) e “Uma Mente Brilhante” (A Beautiful Mind). No primeiro, passado no ambiente da Guerra Fria, os computadores das forças armadas nos EUA aprendem, repetindo várias vezes o “jogo da velha”, que há jogos em que não há ganhador possível. No outro, conta-se um pouco da vida de John Nash, um matemático norteamericano que desenvolveu em parte a teoria dos jogos. O seu trabalho sobre equilíbrios não cooperativos o fez merecedor do prêmio Nobel de economia em 1994.

Um exemplo clássico da teoria dos jogos é o “dilema do prisioneiro”. Nesse jogo, dois prisioneiros que não se comunicam são informados das seguintes regras: cada um pode delatar o outro (não cooperação com o outro prisioneiro) ou ficar calado (cooperação com o outro prisioneiro). Se ambos cooperarem entre si ficando calados, saem da cadeia em 1 ano. Se ambos delatarem, saem da cadeia em 3 anos. Mas se um delatar e o outro ficar calado, quem delatar sai imediatamente, e quem ficar calado sai em 5 anos.

Claramente, é mais vantajoso cooperar, para o conjunto dos dois, pois cada um ficaria apenas 1 ano na cadeia. Mas individualmente, o melhor comportamento pode se tornar o não cooperativo. A não cooperação é mais atraente em uma única jogada do dilema do prisioneiro, especialmente se pensarmos que o outro pode cooperar. Mas se reiterarmos a mesma situação com os mesmos prisioneiros inúmeras vezes, é possível a um prisioneiro montar estratégias que “ensinem” o outro prisioneiro a cooperar. Para isso, é preciso usar os atos de delatar o outro e o de ficar calado de forma inteligente.

No seu livro “A evolução da cooperação: o dilema do prisioneiro e a teoria de jogos”, de 1984, Robert Axelrod apresentou seu estudo do dilema do prisioneiro reiterado. Axelrod convidou vários acadêmicos para criarem programas de computador que competiriam no dilema do prisioneiro. Cada programa continha a estratégia para um prisioneiro que interagia com a estratégia de outro prisioneiro, criada por outro programador. Após inúmeras repetições das jogadas e inúmeras experiências entre estratégias diferentes, tornou-se claro que as estratégias altruístas, de colaboração, eram as melhores. Mas não as cegamente altruístas, muito vulneráveis. Era preciso introduzir, na estratégia altruísta, punições aos prisioneiros que não colaboravam.

Essas conclusões mais simples da teoria dos jogos não surpreendem. Decerto, fico mais tranquilo em saber que o altruísmo é melhor estratégia que o egoísmo. Isso parece confirmar a sabedoria de diversas civilizações por milênios.

Mas o que fazer da realidade brasileira, onde congressistas vendem seus votos e governantes leiloam cargos de confiança e superfaturam obras? O Brasil é mais complexo do que qualquer modelo matemático possa descrever. Ainda assim, os matemáticos talvez possam ajudar a criar soluções para que alguns grupos influentes, sábios e bem intencionados possam mudar o rumo da política em nosso país.

Eu não sou matemático nem especialista em teoria dos jogos, mas, como advogado, tenho esperança de que grandes arquitetos políticos indiquem caminhos seguros e provem que não estamos em um equilíbrio de Nash. Estamos sim em um buraco onde estabilizou-se a exploração e a manipulação do povo pela classe dos chamados políticos brasileiros. Mais adequado seria chamá-los de parasíticos, pois o que se faz no Brasil com certeza não é a ciência suprema e arquitetônica de Aristóteles, mas apenas o resultado de uma evolução de uma população de 98% de espertinhos (como em qualquer lugar do mundo), sem a educação, o conhecimento, o amadurecimento ético ou o rigor de pensamento necessários para “ensinar” adequadamente a todos nós, salvo 1% de santos (seriam tantos?) a não serem infratores; enfim, ensinar os espertinhos e os criminosos a colaborar e desenvolver relações de confiança, como ocorre em países que conseguiram desenvolver a economia com mais força.

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4 respostas para “Teoria dos Jogos Políticos”

  1. Texto primoroso, argumentos claros, concisos e bem encadeados. Ocorre que, ao abordar a realidade política brasileira, o texto discute problemas aplicáveis ao gênero humano e não apenas aos políticos.
    Montesquieu, na teoria, e os fundadores da nação americana (Jefferson, Madison, Hamilton e seus parceiros), na prática, sabiam que o gênero humano não é um conjunto de anjos honestos. Por mais que se procure criar instituições democráticas baseadas em princípios éticos sempre haverá um grupo de humanos dispostos a encontrar meios de usar essas instituições em proveito próprio. A distribuição das atribuições do governo de uma nação entre três poderes independentes (judiciário, legislativo e executivo) proposta por esses pensadores visava exatamente coibir as práticas nocivas dos governantes pela constante vigilância (“checks and balances”) que os membros de cada poder deveriam exercer sobre os demais.
    Na America Latina, nas últimas décadas, essa independência vem perdendo força e cada vez mais o que se vê é um contubérnio de representantes dos três poderes que, ao invés de se vigiarem uns aos outros, se unem nas práticas de enriquecimento ilícito próprio ou de seus apaniguados (há exceções, claro).
    O que fazer? Não há como catequizar os eleitores para que escolham representantes capazes de gerir a coisa pública de maneira honesta nem tampouco como coagir os eleitos a se absterem de agir preferencialmente em causa própria. Vale destacar que o problema do eleitor é bem mais complicado já que o rol de candidatos a cargos eletivos é formado majoritariamente por indivíduos que só estão ali pela certeza de que, se eleitos, vão procurar prioritariamente pelo seu pedaço do bolo (os nomes, fotos e discursos dos candidatos me levam a pensar que Lombroso talvez não estivesse totalmente errado). Resumindo, o problema de governabilidade do Brasil parece insolúvel, pelo menos até onde a vista alcança.
    Mas existe um fato que é rotineiramente desconsiderado nessas análises: os políticos pouco podem, para o bem ou para o mal, sem o apoio (para o bem) ou a conivência (para o mal) de uma burocracia estatal imensa e poderosíssima.
    O ímpeto de nossos políticos em utilizar a coisa pública em benefício próprio seria drasticamente reduzido se eles não tivessem ao seu dispor a burocracia de empresas estatais do porte da PETROBRAS e ELETROBRAS para montar seus esquemas criminosos e de bancos do porte do BANCO DO BRASIL, CEF e BNDES para fornecer financiamentos em condições privilegiadas e sem garantias reais.
    Um país com uma classe política como a nossa que se dá ao luxo de deixar nas mãos desses indivíduos empresas industriais e bancos de grande porte está agindo como um fazendeiro que soltasse um bando de raposas nos seus galinheiros e depois reclamasse que não entendia por que a produção de ovos era tão baixa.
    O que me leva a concluir que, se não podemos acabar com a corrupção por ser própria do gênero humano, podemos, pelo menos, limitar drasticamente o acesso dos corruptos às suas fontes de recursos.
    Para atingir esse objetivo duas medidas seriam suficientes:
    1. Privatizar todas as empresas estatais que não estejam diretamente ligadas a gestão do bem público e ao fornecimento dos diretos básicos dos cidadãos. Um governo que não consegue fornecer serviços de saúde, educação e segurança de qualidade não tem condições de gerir uma grande petroleira, vários bancos de porte e empresas de energia elétrica.
    2. Limitar as nomeações políticas ao nível de Ministro. A partir desse nível todos os burocratas deveriam ser funcionários concursados, promovidos por mérito e competência profissional, sem qualquer interferência política, e com carreiras desvinculadas de qualquer ciclo eleitoral.
    Como não custa sonhar, acredito que se conseguíssemos tirar do alcance dos políticos esses “brinquedinhos” (PETROBRAS, BNDES, etc) de que tanto gostam talvez sobrasse tempo para que eles se dedicassem a reformar: (a) a previdência, fixando uma idade mínima para aposentadoria; (b) o sistema partidário, criando uma cláusula de barreira que eliminasse os partidos de fachada e (c) o sistema eleitoral, evitando que cômicos de sucesso na TV consigam eleger 4 ou 5 deputados de quem nunca se ouviu falar.

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